terça-feira, 14 de outubro de 2008

SECA AZUL-MARINHO

Apenas o vento corre pelos percursos
Delineados por solitários inselbergs
Rochas remanescentes enormes, icebergs
Seria mais apropriado termo, pois no russo
Inverno são aprisionadas, feito almas
Imóveis, inalcançáveis no inferno de gelo
Em que foram capturadas. Só há zelo
Da luz do sol, à iluminá-las, as pedras más
Gritam do ardor da lava, magma azul marinho
Estático, tudo estático, um deserto
Não há nenhum tipo de movimento que decerto
Mostraria um metabolismo de homogêneo
Ecossistema abiótico, mais uma vez
Só há vento, só há gelo, só há rocha, só há solidez
Sobre o chão onde piso a água perdeu toda a sua fluidez
E sob ele ela parece uma resina. Vês
Tu o quanto o jardim da minha alma é insólito?
Vácuo... Vago... Vasto... E insólito...

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

MIL FACAS

Ó, onde é que estava? Que estive fazendo?
E, antes que me esqueça, que faço agora?
Isso parece um bocado de água, escura
Congelante, só água, um deserto, sendo
Assim tão negro e sombrio, tão noturno
Tão profundo e infinito é esse oceano

Eu não lembro de nada, só que acordei
Com água pelo pescoço e sem nenhum chão
É um pesadelo ou o quê, piada? Mexam-
Se os membros, mas tão logo arrependei
Porque o gelo corta cada um feito
Mil facas, dilacerando o peito

E o coração homeostático teima, teima
O meu espírito queima como pode, contudo,
Se a lógica bem observa, hei de a chama
Ver apagar, já visto que só de vontade
Nada no ser humano se vale, à saber
Afinal, que é assim mesmo que tem de ser

Na vida há pancadas e as feridas
São mais teimosas que a alma, a alma!
Coitada da pessoa que escarnece
Há de se ver no meu lugar, às calmas,
Bem às calmas de quem se enternece
Deixo ser dragado pras proferidas

Linhas do destino encruzilhadas
O meu espírito reluzente
Na sopa de renitentes almas insaciadas!

FETIDEZ

É assim a treva que me ronda
Arrasta-se feito lama
Uma negra palidez, uma
Criatura escura pálida

Com pseudópodes aponta
Mais um passo, e outra pessoa
Mais uma vítima na ponta
Da presa, seu rugido soa

Cá estou, refugiado, aqui
Sobre uma lâmpada em que
A brancura por mim criada

Não passa de mais uma cela
Cujos vãos lembram janelas
Através das quais se observa a destruição da raça privilegiada.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

ESCASSEZ

Atravessando o árido deserto da escassez
Escrevi meu nome na terra rachada pela seca
Com um pedaço de pau retorcido, outra vez
Com um garrancho nas mãos desenho as cercas
Onde já encarcerei meu próprio espírito
Para que não vague nestas terras castigadas
As únicas e mais improdutivas que, atônito
Recebi, molhando-as, xiringando da face chagada
As impudicas lágrimas, menos salinas que a rocha
Sobre a qual edifico minha casa, digo, pelo menos
Fica o desenho da obra, numa terra que já foi roxa
Agora causticadas, sem lembranças do vento terno
Imploro as migalhas dos abraços, já fui na vida acossado
Por dono de empresa, pelos escritores da imprensa
Já fui em vida imprensado por seis paredes
Na insônia, na doença, tão cansado, assim na rede
Sem parar de pensar na imensidão do sertão
E o quanto ele todo vale nada frente à minha miséria
Aspereza, faz mais de dois mil anos que o ouro virou pó
Nessas noites, sabe, o pó do ouro salgando a terra
A rima não se acerta, o urubu me sonda
Cheirando o suor da minha roupa pelo canto
Da vista, esperando que minha alma se esconda
E ele terá a recompensa pela qual esperou tanto
No cochilo do morto, ele bica meu olho

ESTRANHO

O ouro decai, e os raios de sol vem
É estranho, é esquisito, tô dizendo
É como se o eco da radiação
Imprimisse bem, bem, bem sutilmente
O calor na paisagem. E, a vendo,
Sinto-me numa área da mente
Cujas memórias são gravadas em
Fotos antigas, sem datação-
Amareladas, amareladas!
É estranho, é esquisito, meesmo!
Tô respirando o pó do tempo
Presente, pó de madeira, de ouro,
Mas pra raspar o ouro não tivemos
Tempo, salpicar o solo mouro
E ver as estrelas oxidadas
Pelo laranja sendo ofuscadas
Laranja do céu no horizonte
Porque estou aqui olhando já faz duas horas

domingo, 28 de setembro de 2008

REGRESSO

E aí, relógio, muito bom te ver de novo
O seu ponteiro parece andar muito bem,
de nada.
Nem sei mais por que o tempo anda tão curvo
E também porque os sulcos não deixam ninguém
por nada.
É só que os crivos da realidade, os túbulos,
Túneis, buracos de minhoca ou mesmo túmulos,
Se preferir, esses ocos da existência,
Que ao morrer por esses vácuos todos passarão,
Preservam sem pensar em qualquer desistência
Nossos corpos, féretros espetados na geleira,
Feito água, feito água congelada com areia.
A Antártida se encontra permeada por cada caixão
Volto aqui a observar a vida pela janela dos meus olhos, esta casa de inverno estava fechada, mas voltei, acendei o fogo do fluxo de consciência!

terça-feira, 26 de agosto de 2008

SIMULTANEIDADE

Uma borboleta bate as asas em Pequim;
No Central Park faz sol;
No sertão uma rajada de radiação à pino;
A Sibéria sofre com o aquecimento;

Há alguém comprando tinta nanquim, pintando sinos
Que viu numa catedral
Em viagem ao Nordeste. Quanto conhecimento
Foi levado ao outro lado do mundo...

Ontem, estava sob o efeito do pôr do sol, mas
Isso foi há um ano,
E ontem acabou de passar, pois acordei
Faz pouco tempo, pelo que lembro talvez

Do céu vermelho, estava no carro, olhando as
Nuvens no seu afano -
Um ano atrás, dois meses, ontem, eu nem sei
Em que época estamos! -... Que pequenez...

Arrastando-me pelo azul, floco de neve
A enrubescer tanto...
Dias atrás, em uns acasos simultâneos
O mundo se desfez, e agora isso!

Contando os dias para que as horas passem...
Estão demorando, o manto branco,
O crânio, polido, me mantém preso
Aqui dentro, nisso, frio, mas leve
4 janelas, barras de dentes... Tudo se mistura;

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

ELEGIA

Ó, fruto sagrado!
Ó, atrocidades mil!
Ó, eleição divina!
Ó, velhos discos de vinil!

Vão deixar meu samba
Apodrecer na rua
Feito cachorro velho
Ignorado aos assobios

Assim na corda bamba
Nessa verdade nua
Num turbilhão estéreo
A me assoprar dos lados

Brincando comigo assim como alguém chuta
Uma lata amassada, uma carcaça na calçada
O cão sem dono, mas amigo de todos, na justa
Hora em que morre, arrebatado numa tragada

Só

Só

Eu me encontro, depredado
E por mim mesmo, confinado
No consultório psiquiátrico
Da epifania e auto-análise

Irônico e sarcástico
Publicamente gentil
Internamente sagaz
Altamente febril

A anedonia e também a autólise
Gravam em mim as tatuagens
Das intempéries e estiagens
30ml é uma baixa dose

Para acelerar o passar do tempo, e
Me levar logo à ti, me desculpar
Ao saber do que fiz, o que ouvis
É minha apologia, uma elegia que

Muito em breve terminará

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

SUPERAÇÃO

Gestos... sons... turbilhões trêmulos,
Tempestades em copos d’água...
Horizontes impassíveis, os
Velhos traços, eis aqui mágoa.

Ressentimento velho, já era...
Inerte dentro do veículo
Que tão logo me acelera
Em doze horas me vejo

A pé na calçada
Pessoas correndo
Vácuo surgindo

A fé superada
Eu sou dragado
Vórtice criado

Do coma eu acordo trépido,
Os sentidos lentamente vêm
De volta da nauseante, também
Movediça temeridade...

O mesmo raciocínio de
Antes, e me sinto pérfido...
Finalmente estou aquém da traição
A que me lancei, ambas as mãos

Abertas, em queda livre
No meio da passarela
De pé, e caindo sempre

Perdido na aquarela
Que borra do céu, entre
Gotas... Chora! Estala!

Dentes com dentes! Ranja!
E a aquarela apenas fica mais borrada quando a encaro entre lágrimas...

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

SONHO NEGRO

Ó, Volúpia e Sonhos defasados!
Quanta Mesmice, sexo sem Tato!
Minh’alma estremece, intumesce
Inchada de execrabilidade

Palavras enormes, palavras, tão
Malucas, misturadas, que farão
Sopas de letrinhas Oceânicas
Dos mandarins em ruas titânicas

Placas com mais placas e outdoors
Hoje tem um show do “The Doors”
Na cidade mais próxima

Ó, nuvens, negras, brancas, Altas
Altaneiras, invisíveis, só
Apenasmente mais nada!