domingo, 28 de setembro de 2008

REGRESSO

E aí, relógio, muito bom te ver de novo
O seu ponteiro parece andar muito bem,
de nada.
Nem sei mais por que o tempo anda tão curvo
E também porque os sulcos não deixam ninguém
por nada.
É só que os crivos da realidade, os túbulos,
Túneis, buracos de minhoca ou mesmo túmulos,
Se preferir, esses ocos da existência,
Que ao morrer por esses vácuos todos passarão,
Preservam sem pensar em qualquer desistência
Nossos corpos, féretros espetados na geleira,
Feito água, feito água congelada com areia.
A Antártida se encontra permeada por cada caixão
Volto aqui a observar a vida pela janela dos meus olhos, esta casa de inverno estava fechada, mas voltei, acendei o fogo do fluxo de consciência!

terça-feira, 26 de agosto de 2008

SIMULTANEIDADE

Uma borboleta bate as asas em Pequim;
No Central Park faz sol;
No sertão uma rajada de radiação à pino;
A Sibéria sofre com o aquecimento;

Há alguém comprando tinta nanquim, pintando sinos
Que viu numa catedral
Em viagem ao Nordeste. Quanto conhecimento
Foi levado ao outro lado do mundo...

Ontem, estava sob o efeito do pôr do sol, mas
Isso foi há um ano,
E ontem acabou de passar, pois acordei
Faz pouco tempo, pelo que lembro talvez

Do céu vermelho, estava no carro, olhando as
Nuvens no seu afano -
Um ano atrás, dois meses, ontem, eu nem sei
Em que época estamos! -... Que pequenez...

Arrastando-me pelo azul, floco de neve
A enrubescer tanto...
Dias atrás, em uns acasos simultâneos
O mundo se desfez, e agora isso!

Contando os dias para que as horas passem...
Estão demorando, o manto branco,
O crânio, polido, me mantém preso
Aqui dentro, nisso, frio, mas leve
4 janelas, barras de dentes... Tudo se mistura;

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

ELEGIA

Ó, fruto sagrado!
Ó, atrocidades mil!
Ó, eleição divina!
Ó, velhos discos de vinil!

Vão deixar meu samba
Apodrecer na rua
Feito cachorro velho
Ignorado aos assobios

Assim na corda bamba
Nessa verdade nua
Num turbilhão estéreo
A me assoprar dos lados

Brincando comigo assim como alguém chuta
Uma lata amassada, uma carcaça na calçada
O cão sem dono, mas amigo de todos, na justa
Hora em que morre, arrebatado numa tragada

Só

Só

Eu me encontro, depredado
E por mim mesmo, confinado
No consultório psiquiátrico
Da epifania e auto-análise

Irônico e sarcástico
Publicamente gentil
Internamente sagaz
Altamente febril

A anedonia e também a autólise
Gravam em mim as tatuagens
Das intempéries e estiagens
30ml é uma baixa dose

Para acelerar o passar do tempo, e
Me levar logo à ti, me desculpar
Ao saber do que fiz, o que ouvis
É minha apologia, uma elegia que

Muito em breve terminará

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

SUPERAÇÃO

Gestos... sons... turbilhões trêmulos,
Tempestades em copos d’água...
Horizontes impassíveis, os
Velhos traços, eis aqui mágoa.

Ressentimento velho, já era...
Inerte dentro do veículo
Que tão logo me acelera
Em doze horas me vejo

A pé na calçada
Pessoas correndo
Vácuo surgindo

A fé superada
Eu sou dragado
Vórtice criado

Do coma eu acordo trépido,
Os sentidos lentamente vêm
De volta da nauseante, também
Movediça temeridade...

O mesmo raciocínio de
Antes, e me sinto pérfido...
Finalmente estou aquém da traição
A que me lancei, ambas as mãos

Abertas, em queda livre
No meio da passarela
De pé, e caindo sempre

Perdido na aquarela
Que borra do céu, entre
Gotas... Chora! Estala!

Dentes com dentes! Ranja!
E a aquarela apenas fica mais borrada quando a encaro entre lágrimas...

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

SONHO NEGRO

Ó, Volúpia e Sonhos defasados!
Quanta Mesmice, sexo sem Tato!
Minh’alma estremece, intumesce
Inchada de execrabilidade

Palavras enormes, palavras, tão
Malucas, misturadas, que farão
Sopas de letrinhas Oceânicas
Dos mandarins em ruas titânicas

Placas com mais placas e outdoors
Hoje tem um show do “The Doors”
Na cidade mais próxima

Ó, nuvens, negras, brancas, Altas
Altaneiras, invisíveis, só
Apenasmente mais nada!

sexta-feira, 11 de julho de 2008

FILHO DO VAZIO

Filho deserdado e sem genitor,
Órfão do vazio...
Deformado do nada frio,
Sem qualquer calor.

Sem qualquer resquício do gerador.
Chega a ser alívio consolador
O decreto de morte expedido
Para o motor que tem expelido

Todo o combustível
Sem nenhum pudor,
Plano infalível!

Pois Agora acabou!
Será a vida isso,
E ninguém me falou?

quinta-feira, 10 de julho de 2008

SOBRADO

O compasso furtivo do sol
Mais lento do que o pêndulo
Suíço,é elevado trêmulo
Como um feixe vermelho lento
Que na madrugada azul raiou

E as horas que levam seu tato
São surdas para o grito
Abandonando seus traços ao
Longo desse caminho,qual
Por escolha própria eu sigo

Quase obcecado pelos olhos de Ísis
Cuja paixão suprimida pelas pálpebras
Cansadas de há muito chorarem lágrimas
Secas e salgadas e mudas por Osíris
Tanto penaram frustrações e lágrimas
Invejas e mágoas, desenganos horríveis

Tanto visaram o próprio eu
Na frente do espelho morreu
O fantasma da alma, nasceu
Uma nova corrente na frente
Desse rosto que se encara

Arrastando o cadáver do passado
Corrente pesada, passado pesado
Junto com os traços, em todos os rastros
Eu miro para apontar meu destino
E assim seguí-lo.

domingo, 22 de junho de 2008

SOCIEDADE METALÚRGICA ESPIRITUAL

A que diga o ourives servindo o rei

E os toscos ouvintes da rádio Cereja

Quanto às nuvens que deslizam hoje

E a lua que rola sem eira nem beira

Apenas faça do ouro lingotes e barras

Da música companhia sem hora marcada

Das horas um caminho maior que o horizonte

Que te levará sem explicar para não sei aonde

O amarelo do sol que enferruja a firmeza

Da manhã de segunda, quarta e sexta

Derrete as bordas e silhuetas

De pessoas, árvores e mesas

Dispostas em calçadas, ruas, restaurantes

Em espiral se retorcem suavemente

Antes que se perceba o trabalho foi feito

De um jeito ou de outro, pronto e sem medo

Aqui jaz a obra de arte de cada um

Olhada por todos e por mais nenhum

Muita saudade, muita incerteza

Nenhuma piedade, toda rudeza

A cara de quem passa fome

A insolência de quem não sabe o que come

Sem estar aquém da sutileza

Com que é enganado ao sentar na cadeira

Bem como o orgulho de quem é sepultado

E que jamais poderá ser alcançado

E daqueles cujo orgulho está morto

E se lançam ao chão pedindo aos outros

Também a raiva e a língua tesa

De quem assiste o mundo nas telas

Do televisor, do pintor, das bordadeiras

O vendo rolar a ribanceira

Também o frio do vento que vem carregando

As vidas das pessoas que vão se lançando

Sem mais nem menos ao sabor do existir

Sem esperar pra saber quando chega o fim

Isso tudo é fruto da nossa inocência

Isso tudo é coisa ruim de quem pensa

E também de quem não

Também de quem não o faz

Porque a Terra é tão

Cheia de gente sagaz

Que aceita tudo o que a realidade deve ser

Sem questionar tudo antes de ver

Pergunta metade das coisas e ainda diz uma coisa saber

Isso acontece com todos, comigo e ainda com você

Apenas deixar a vida em paz

Seria o mesmo que morrer?

PROMESSA

A promessa de que o futuro é um destino certo
Demorou um bom tempo para entrar na minha cabeça
Já que a todo momento nós inventamos decretos
Como nova promessa para que a velha desapareça

O destino dos humanos não deveria ser
Algo que diga respeito às pessoas
Já que cada um busca o seu querer
Sem o intento de buscar o das outras

“Cada um é adulto e pode cuidar de si mesmo, então deve seguir em frente sem precisar de conselho
Cada um é cada um e um só no espelho, então não deve se sentir só a ponto de cair em desespero
Não está certo prometer por alguém algo que alguém deve cumprir, não procure pela preguiça que ela não está aqui
Decerto você que aceitou a mão de alguém, só sabe cair, não aprendeu a andar sozinho e agora implora por aí”

Não é isso o que dizem?
Não é esse o conselho?
Não é esse o egoísta
E único exemplo?

“Eu não pedi que você me salvasse, eu nunca deixei de enfrentar as coisas com seriedade
Eu nunca quis que você me mudasse, eu só pedi um abraço quente e sua fidelidade”
“Eu nunca fiz algo de ruim ao próximo, olho só para frente e ocupo meu ócio
Eu sempre fui ensinado a seguir meu caminho, cada um nasce e morre sozinho”

Não é isso que ensinam?
Não é isso que é certo?
Não é isso através da história
Senso perfeito de brilhante e perfeita glória?

Não é isso que se aviva no ululante comum
Que se ensina a ser e morrer por mais nenhum
Além daquele se vê sozinho no espelho
Quando se toca os próprios cabelos?

(Se se tiver cabelo)