sexta-feira, 21 de agosto de 2009

CANSAÇO

Há um turbilhão sobre a cama
Em que meu espírito deita
Para descansar deste dia
Sentado nesta cadeira

É o som de uma cachoeira
E revoadas, debandadas
Tendo uma folha inteira
Ainda a ser preenchida

A poesia clama e declama
Mas minha alma está cansada
Já se extinguiu a minha chama

Acordo do entressonho
Como a tarde está calada!
Deus, que descanso medonho...

SEIXOS

As tradições dos homens não me despertam
Nem mulhereres de bocas delineadas me apetecem
As bocas de que gosto não precisam ser finas
Vibrantes, sorridentes, nem as que os suspiros engrandecem
Passo o dia inteiro dormindo
Mas desço à ribeirinha
Ainda na manhã de domingo
Cortando o éter da monotonia
Resgato da memória um garimpeiro
Catando pedras das águas leitosas
Separando de toda variedade
As pedras mais iguais que pode
Mas quando seu ectoplasma some
Olho para os seixos sobre os quais ando
E são estas pedras que me atraem para a descida
Caso avistasse ouro, logo venderia
Mas uma pedrinha cujo formato jamais vi
Guardá-la hei por toda a vida
É a memória carinhosa do calor
Com que a natureza me abraça
Entre tantos ourives destruindo
A forma com qual a pedra fora encontrada
A lapidar o que já foi único
Para igualar ao que já se fez
Prefiro pedras sem brilho
Sem sorriso,
Mas mais raridade em sua tez

terça-feira, 18 de agosto de 2009

MAIS UMA

Tua existência judia da minha filosofia
Tua presença brinca com meus valores
Tua imagem torce o meu espelho
Tu não sabes mais de mim do que eu de ti

Te esperei por toda a vida
Mas pena não teres mais cedo me encontrado
Por fora és a mais perfeita de Pablo
Por dentro temo entendê-la menos que Dalí

Pois tua prosa já escrita se fez
Tua poesia rimada ou não
Tuas cores, bordadas, tuas formas
Moldadas, fundidas, lapidadas

A artista que encarna teus sopros
Teus suspiros, falares, pensares e pesares
Talvez ache que tua obra não se encaixe
Na mesma parede que a minha

E talvez não se encaixe de fato
Contudo, o alvoroço, o rebuliço
Que tu causas só de estar à vista
É suficiente para toda a admiração

Todo o encanto, todo o espanto
Toda a nobreza que te cerca
Visível aos meus olhos, é ipermeável
Aos meus desejos, é ipermeável

Aos meus pensamentos

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

FULGOR

O que fazer com toda a inquietação
A timidez pungente, o arrependimento
De saber que não se terá agido
E toda a falta de entedimento
A respeito do que está acontecendo
Não é hora epifânica e de razão

As teses trêmulas, sucumbindo
A saliva chove alma adentro
A trepidação do espírito
É perceptível no centro
Do meu humilde e estrito
Estar, vais assim me arrebatando

Tudo isso é pouco, pra explicar meu desconcerto
Meu falar é rouco, meu falar comigo mesmo
Meu ar é seco, o que incrementa o desconforto
O que implementa o desespero, lirismo
Exagerado, clichês, tudo aqui tem algo a ver
Mas não tem solução, qualquer um pode entender

Porque que mais um ser humano consegue
Além de se manter de pé
Diante da presença de alguém
A quem uma singularidade física
Persegue, o espaço-tempo
Encurta caminhos, trajetos

Tanto aproximas nossas almas que até
Do teu calor a minha se apetece
Não mais do que uma mulher para outrem
A criação da singularidade mais única
Para mim, e nada tento
Apenas te observo os trejeitos

Teu nome nem sei
Se foi escrito ao lado do meu
Menos
Mas és tão rara para mim
Que sinto o furor de te ter descoberto
E ardor de poder deixar-te ir

terça-feira, 7 de julho de 2009

PARA...

Desta altura sinto que o vento
me carregaria caso eu pulasse
e o sol parece um cobertor quente
nessas horas de cores suaves
as nuvens as vezes se espalham
como se alguem as dispersasse
e o cheiro da manhã ou fim de tarde
me faz lembrar da sensação
dos teus cabelos, o aroma
da tua pele, do pescoço, da face
e de estar caindo lentamente
como uma folha na relva
a perder a cor para o vermelho
que o sol irradia no entardecer eterno
então, por favor, me encontre
aqui em cima, estarei esperando
desta vez lhe direi aquilo
e também quero agradecer
por todo esse tempo.
Por favor, venha!

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Se a realidade das coisas
Não fosse esquisita
Não fosse disforme
Estaria eu escrevendo coisas?

Se a realidade das coisas
Fosse simétrica
Fosse Conforme
Estaria você pensando coisas?

Se a realidade das coisas
Não fosse randômica
Meio à sorte
Estaríamos nós entendendo coisas?

terça-feira, 9 de junho de 2009

(DES)ENCONTRO

Vários filmes se desenrolam
A medida que olho de um lado a outro
Como fotos em álbuns que eu ignoro
Não há como apreciar tantas vidas que passam
Mesmo que eu olhe nos olhos aqui e ali
A multidão permanece introvertida
Ler todas essas vidas
Não é sequer tão agradável
Mas, como sempre um mas
Entre tantos rolos
O seu filme voa patamar abaixo
Julgo pela capa, pois não enxergo
Seus olhos, não consigo fitá-los
Me abate uma tristeza insuportável
Avareza e ganância de te ter
Enquanto você permanecerá intocável
O que me fez humano por instantes
Despertando desejos, por cabelos vermelhos
Pele branca, largos quadris delineados, pequenos seios
E imaginar o teu cheiro sob o perfume
Me faz novamente uma vítima
Da consciência de existir
Enquanto os sentimentos são entorpecidos
Pela falta de ambição, a humanidade em mim é
Mais uma vez, drenada, desta vez
Pela desesperança, pois seus olhos
Fitam um planeta distante
Muito além do meu interior
E quando você olha para o nada
Eu sinto que não conseguiria entrar
E te sentir por detrás do olhos e pele
Nem ler os seus sentimentos
Nem ver os desenhos das tuas tatuagens
Nem descobrir a marca do teu perfume
No fim, vamos acabar nos desencontrando
Quando o ônibus atingir o ponto
Em que um de nós acaba abandonando o outro

sábado, 21 de março de 2009

JOGO DA VIDA

O que é a vida senão um jogo?
Videogame ou tabuleiro,
Caixa sem peças, mas logo
Dela surge o mundo inteiro.

E imagens dentro da tela,
Também peças espalhadas,
Se acaso nós, pela sala,
Imaginarmo-nas todas,

Para preencher esse tédio,
Que às vezes nos enche de ódio,
Sem nem saber o que fazer,
Nem mesmo o que satisfazer.

E a gente não fica apenas
Nesse pega, mata e come,
Vivendo assim à duras penas
Só para matar a fome,

Pois povo não quer só pão,
Não quer só suruba, circo,
Quer obrigação, e fisco.
E digo eu que se poupam.

Querem sua dificuldade,
Seu tempo todo sofrido,
Para ter dignidade,
Para merecer castigo.

Ninguém tem afinidade
Com o tempo puro e fluido.
Inventa mundo, maldade...
Burocracia... Perigo...

Mas não adianta nem se esconder
Nem fugir. No fim de tudo
O vencedor irá aceder
Ao vazio, tédio, e ao mudo.

Todos vencerão sem importar
A paixão que tiver pelos
Dados, para nunca voltar,
Não importa nem o zelo

Que tiver consigo mesmo,
Nunca mais voltar ao jogo.

segunda-feira, 9 de março de 2009

DÓ FÁMIRÉSI

Dó fámirési fámirési

Lá lási siré siréfámi

Lárélámiláfá
Lámilárélámi
Láfálámi

Lárélámiláfá
Lámilárélámi
Láfá

Rémifádómifáré

Sirémifárémisi

Lásirémisirélá

Lálá lá

Lálá si

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

POESIA MENTAL

Eu gosto de descer a este vale, as recordações são boas, mesmo que não tenha havido nada de especial todos esses anos.
O laranja é uma cor horrível? Quem diria algo assim... É a cor que o céu escolheu ter. Vermelho também. Azul, só lá em cima, onde o Sol não alcança, ele está quase escorregando nas costas das montanhas, muito distantes. De lá ele lança essa penugem rústica, inflamada, morna, tenra, esse véu amarelado. O verde da grama selvagem se agita, se enternece, escurece de acordo com a distância, fica translúcido ao se aproximar das montanhas, longínquas. É como se o Sol ao entrar em contato com a rocha estridulasse, me fazendo desejar que ele descesse de vez e acabasse com a pressão na minha cabeça. Não agüento mais, esse momento está se tornando insuportável. As nuvens estão dispostas como se alguém tivesse as agitado, antes era o mel perfeito disposto sobre a calda, mas alguém mexeu e elas se dispersaram e se distorceram, se misturaram, assumiram várias cores, rosa, preto, branco... O barulho faz com que a imagem desfocalize, entonteço.
Caio na penugem. Não sei onde está o Sol. O céu derreteu, azul, roxo, branco, verde, amarelo, laranja, vermelho... Em breve o calor vai embora e o céu congela. Eu também se ficar aqui fora.